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quarta-feira, 25 de maio de 2016

A Fé Ativa construindo uma Nova Era 22 #Discurso II

A Fé Ativa construindo uma Nova Era 22

Módulo/Eixo Temático: A Fé Ativa

Discurso II

 (Allan Kardec, in “Viagem Espírita de 1862”)

O Espiritismo apresenta um fenômeno desconhecido na história da filosofia: a rapidez de sua propagação.

Nenhuma outra doutrina oferece exemplo semelhante. Quando se afere o progresso que vem sendo feito, ano após ano, pode-se, sem nenhuma presunção, prever a época em que ele será a crença universal.

A maioria dos países estrangeiros participam do movimento: Áustria, Polônia, Rússia, Itália, Espanha, Constantinopla, etc., contam numerosos adeptos e várias sociedades perfeitamente organizadas. Possuo uma relação onde estão arroladas mais de cem cidades, com grupos em funcionamento. Entre elas, Lyon e Bordeaux ocupam o primeiro lugar. Honremos, pois, essas duas cidades, que se impõem por sua população e sua cultura e onde tão alto e tão firmemente foi hasteada a bandeira do Espiritismo. Muitas outras ambicionam caminhar em suas pegadas.

A esse mesmo respeito palestrei com vários viajantes. Todos estão de acordo em dizer que, a cada ano, registram-se progressos na opinião pública. Os galhofeiros diminuem à vista d’olhos. Mas ao escárnio sucede a cólera.

Ontem riam-se, hoje zangam-se. De acordo com um velho provérbio, isso é de bom augúrio e leva os incrédulos a concluir que à questão deve estar implícito um motivo sério qualquer.

Um fato não menos característico é que tudo quanto os adversários do Espiritismo fizeram para entravar sua marcha, longe de detê-lo, ativou o seu progresso. E pode-se afirmar que, por toda parte, esse progresso está em relação aos ataques sofridos. A imprensa o enalteceu? Todos sabemos que, longe de estender-lhe as mãos, ela lhe tem deitado aos pés; e com isso não conseguiu senão fazê-lo avançar. O mesmo ocorre relativamente aos ataques que, em geral, lhe têm sido endereçados.

Há, pois, com referência ao Espiritismo, um fenômeno que se constitui em uma constante: é que, sem o recurso de qualquer um dos meios habitualmente empregados para alcançar o que se denomina um sucesso, e apesar dos entraves que lhe têm sido impostos, ele não cessa de ganhar terreno, todos os dias, como para dar um desmentido àqueles que predizem seu fim próximo. Será isso uma presunção, uma fanfarrice de nossa parte? Não, trata-se de um fato impossível de ser negado. Ele hauriu sua força em si mesmo, o que prova o poder incoercível dessa ideia. Aqueles a quem isso contraria, pois, farão melhor mudando de partido ou se resignando a deixar passagem franca ao que não podem deter. O caso é que o Espiritismo é uma ideia e quando uma ideia caminha, ela derruba todas as barreiras; não se pode detê-la nas fronteiras, como um pacote de mercadoria. Queimam-se livros, mas não se queimam ideias, e suas próprias cinzas, levadas pelo vento, fazem fecundar a terra onde ela deve frutificar.

Todavia não basta lançar uma ideia ao mundo para que ela crie raízes. Não, certamente! Não se cria à vontade opiniões ou hábitos; o mesmo ocorreu relativamente às invenções e descobertas; mesmo a mais útil se perde se não chega a seu tempo, se a necessidade que está destinada a satisfazer não existe ainda. O mesmo ocorre quanto às doutrinas filosóficas, políticas, religiosas e sociais; é preciso que os Espíritos estejam maduros para aceitá-las. Se chegam muito cedo permanecem em estado latente e, como os frutos plantados fora da estação, não vingam.

Se, pois, o Espiritismo encontra tão numerosas simpatias, é que o seu tempo está chegado, é que os Espíritos estão maduros para recebê-lo, é que ele responde a uma necessidade, a uma aspiração. Tendes disso a prova pelo número, hoje incontável, de pessoas que o acolhem sem estranheza, como algo de muito natural, a partir do momento que se lhes fala a respeito pela primeira vez. E confessam que tudo sempre lhes pareceu ser assim, mas que não eram capazes de definir suas ideias. Sente-se o vazio moral que a incredulidade e o materialismo criam em torno do homem; compreende-se que essas doutrinas cavam um abismo para a sociedade; que destroem os laços mais sólidos: os da fraternidade. E, depois, instintivamente, o homem tem horror ao nada, como a natureza tem horror ao vazio. Eis porque ele acolhe com alegria a prova de que o nada não existe.

Mas dir-se-á, não se lhe ensinou, todos os dias, que o nada não existe? Sem dúvida, isso lhe foi ensinado! Mas, então, como entender que a incredulidade e a indiferença tenham incessantemente crescido neste último século?

É que as provas oferecidas não satisfazem mais, hoje em dia, pois não respondem às necessidades de sua inteligência. O progresso científico e industrial tornou o homem positivo. Este quer se dar conta de tudo. Quer saber o porquê e o como de cada coisa. Compreender para crer se tornou uma necessidade imperiosa. Eis o motivo pelo qual a fé cega já não possui domínio sobre ele. E isso para uns é um mal, para outros um bem. Sem desejar discutir a questão, diremos apenas que assim é a lei da natureza. A humanidade coletivamente, como os indivíduos, tem sua infância e sua idade madura. Quando se encontra na maturidade, atira à distância seu cueiro e quer fazer uso de suas próprias forças, isto é, de sua inteligência. Fazê-la retroceder é tão impossível quanto obrigar um rio a retornar às suas fontes.

Atacar o mérito da fé cega, dir-se-á, é uma impiedade, pois que Deus quer que se aceite sua palavra sem exame.

A fé cega teve sua razão de ser, direi mesmo sua necessidade, mas em um certo período da história da humanidade. Se hoje ela não basta mais para fortalecer a crença, é porque está na natureza da humanidade que assim deve ser. Ora, quem fez as leis da natureza? Deus ou Satã? Se foi Deus, não haverá impiedade em seguir-se suas leis. Se, na atualidade, compreender para crer se tornou uma necessidade para a inteligência, como beber e comer é uma necessidade para o estômago, é que Deus quer que o homem faça uso de sua inteligência: de outro modo não tê-la-ia dado. Há pessoas que não experimentam essa necessidade, que se contentam em crer sem exame. Não as recriminamos e longe está de nós o pensamento de perturbá-las em sua tranquilidade. O Espiritismo, evidentemente, não se destina a elas: se têm tudo o de que necessitam, nada há a oferecer-lhes. Não se obriga a comer à força àqueles que declaram não ter fome. O Espiritismo está destinado àqueles para os quais o alimento intelectual que lhes é dado não basta e o número destas pessoas é tão grande que o tempo não sobra para nos ocuparmos com as outras. Por que, então, se queixam quando não lhes corremos ao encalço? O Espiritismo não procura ninguém, não se impõe a ninguém, limita-se a dizer: “Aqui me tendes, eis o que sou, eis o que trago. Os que julgam ter necessidade de mim, se aproximem, os demais permaneçam onde se encontram. Não é meu propósito perturbar-lhes a consciência nem injuriá-los. A única coisa que peço é a reciprocidade.

Por que, então, o materialismo tende a suplantar a fé? Acaso porque, até o presente, a fé não raciocina? Por que ela diz “Crede!”, enquanto o materialismo raciocina? Estes são sofismas, convenho; porém, boas ou más, são razões que, ao ver de muitos, levam vantagem sobre aqueles que nada oferecem. Acrescentai a isto que o materialismo satisfaz àqueles que se comprazem na vida material, que querem se distrair das consequências do futuro, que esperam, assim, escapar à responsabilidade de seus atos, tendo-se em vista que, em suma, ele é eminentemente favorável à satisfação de todos os apetites brutais. Na incerteza do futuro, o homem se diz: “Aproveitemos o presente. Que benefício me trazem os meus semelhantes? Por que me sacrificar por eles? São meus irmãos, diz-se. Mas de que me servem irmãos que eu perderei para sempre, que amanhã estarão mortos, como eu próprio? Que somos, afinal, uns para com os outros? Muito pouco se, uma vez mortos, nada resta de nós. De que servirá impor-me privações? Que compensação dela me poderá advir se tudo terminará comigo?”

Julgais possível fundar uma sociedade sobre as bases da fraternidade com semelhantes ideias? O egoísmo é a consequência natural de uma posição como essa. De acordo com o egoísmo, cada um tira o melhor para si, mas essa parte melhor é sempre o mais forte que leva. O fraco, por sua vez, raciocinará: “Sejamos egoístas, uma vez que os outros também o são. Pensemos apenas em nós, pois que os outros só pensam em si mesmos.”

Tal é, convenhamos, o mal que tende a invadir a sociedade moderna e esse mal, como um verme roedor, pode arruiná-la em seus fundamentos. Oh! qual não será a culpa dos que a levam por esse triste caminho, dos que se esforçam por rechaçar a crença, dos que preconizam o presente com prejuízo do futuro! Eles terão um terrível débito a resgatar, pelo uso que fizeram de sua inteligência!

E, enquanto isso, a incredulidade deixa em seu rastro um mar de inquietude. Se é cômodo ao homem entregar-se às ilusões, não pode furtar-se de pensar, vez por outra, no que lhe sucederá depois. A contragosto a ideia do nada o enregela. Quereria ter uma certeza e não a encontra; então flutua, hesita, duvida, e a incerteza o mortifica. Sente-se desgraçado em meio aos prazeres materiais que não podem preencher o abismo do nada que se abre a seus pés e onde, supõe, vai ser precipitado.

É nesse momento que chega o Espiritismo, como uma âncora salvadora, como um archote aceso nas trevas de sua alma. Vem tirá-lo da dúvida, vem preencher o horror do vazio, não com uma esperança vaga, porém com provas irrecusáveis, resultantes da observação dos fatos. Vem reanimar sua fé, não apenas dizendo: “Crede, pois isso vos ordeno!”, mas: “Vede, tocai, compreendei e crede!”. Ele não poderia, pois, chegar em momento mais oportuno, seja para deter o mal, antes que se torne incurável, seja para satisfazer às necessidades do homem, que já não crê sob palavra, que aspira racionalizar aquilo em que crê. O materialismo o seduzira por seus falsos raciocínios; aos seus sofismas era preciso opor raciocínios sólidos, apoiados em provas materiais. Para essa luta, a fé cega já se mostrava impotente. Eis por que digo que o Espiritismo veio a seu tempo.

O que falta ao homem é, pois, a fé no futuro! E a ideia que se lhe dá não satisfaz ao seu apetite pelo positivo. É por demais vaga, por demais abstrata. Os laços que o prendem ao presente não são bastante definidos. O Espiritismo, pelo contrário, nos apresenta a alma como um ser circunscrito, semelhante a nós, exceção feita ao envoltório material do qual se desprendeu, mas revestida de um outro envoltório, fluídico, o que é mais compreensível e leva a conceber melhor a individualidade. Mais do que isso, ele prova, pela experiência, as relações incessantes do mundo visível com o mundo invisível, que se tornam, assim, reciprocamente solidários. As relações da alma com o ambiente terreno não cessam com a vida; a alma em estado de Espírito constitui uma das engrenagens, uma das forças vivas da natureza, já não é um ser inútil, que não pensa e não tem senão uma íntima ação durante a eternidade. É sempre, e por toda parte, um agente ativo da vontade de Deus para a execução de suas obras. Assim, conforme a Doutrina Espírita, tudo se concatena, tudo se encadeia no Universo, e nesse grande movimento, admiravelmente harmonioso, as afeições sobrevivem. Longe de se extinguirem, elas se fortificam e se depuram.

Ainda que não houvesse aqui senão um sistema, ele teria sobre os outros a vantagem de ser mais sedutor, embora sem oferecer certeza. Todavia é o próprio mundo invisível que se vem revelar a nós, provar que está, não em regiões do espaço inacessíveis mesmo ao pensamento, mas aqui, ao nosso lado, em torno de nós, e que vivemos em meio dele, como um povo de cegos em meio a um outro, capaz de ver. Isso pode perturbar certas ideias, convenhamos.

Mas diante de um fato, queiramos ou não, temos de nos inclinar. Poder-se-á negar tudo isso, poder-se-á querer provar que não pode ser assim. A provas palpáveis, seria o caso de opor provas mais palpáveis ainda. Todavia o que se oferece?

Apenas a negação!

O Espiritismo apoia-se sobre fatos. Os fatos, de acordo com o raciocínio e uma lógica rigorosos, dão ao Espiritismo o caráter de positivismo que convém à nossa época. O materialismo veio minar toda a crença, solapar os alicerces, substituir a moral pela razão de ser e jogar por terra os próprios fundamentos da sociedade, proclamando o reino do egoísmo. Então os homens sérios se perguntaram para onde um tal estado de coisas nos conduziria e viram um abismo. Eis que o Espiritismo veio preenchê-lo, dizendo ao materialismo: Não irás muito longe, pois aqui estão os fatos que provam a falsidade de teus raciocínios.

O materialismo ameaçava fazer a sociedade mergulhar em trevas, afirmando aos homens: O presente é tudo, o futuro não existe.

O Espiritismo corrige a distorção afirmando: O presente é bem pouco, mas o futuro é tudo. E isto ele o prova.

Um adversário escreveu, de certa feita, em um jornal, que o Espiritismo é cheio de seduções. Ele não podia, involuntariamente, dirigir-lhe um elogio maior, ao mesmo tempo condenando-se de maneira mais peremptória. Dizer que uma coisa é sedutora é, na verdade, dizer que ela satisfaz. Ora, eis aqui o grande segredo da propagação do Espiritismo. Por que não lhe opõem algo de mais sedutor, para suplantá-lo? Se tal não se faz é porque não se tem nada de melhor a oferecer. Por que ele agrada? É muito fácil explicar.

Ele agrada:

Porque satisfaz à aspiração instintiva do homem em relação ao futuro;

Porque apresenta o futuro sob um aspecto que a razão pode admitir;

Porque a certeza da vida futura faz com que o homem enfrente com paciência as misérias da vida presente;

Porque, com a doutrina da pluralidade das existências, essas misérias revelam uma razão de ser, tornam-se explicáveis e, ao invés de ser atribuídas à Providência, em forma de acusação, passam a ser justificáveis, compreensíveis e aceitas sem revolta;

Porque é um motivo de felicidade saber que os seres que amamos não estão perdidos para sempre, que os encontraremos e que estão constantemente junto de nós;

Porque as orientações dadas pelos Espíritos são de molde a tornar os homens melhores em suas relações recíprocas; estes e, além destes, outros motivos que só os espíritas podem compreender.

Em contrapartida, que sedução oferece o materialismo? O nada! Nele todo o consolo que apresenta para as misérias da vida.


Com tais elementos, o futuro do Espiritismo não pode ser duvidoso e, todavia, se devemos nos surpreender com alguma coisa, será com o fato de que tenha franqueado um caminho tão rápido através dos preconceitos. Como e por que meios alcançará a transformação da humanidade é o que nos resta examinar.