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sábado, 14 de fevereiro de 2015

FUGITIVOS DA LUTA MORAL


Walter Barcelos

O suicídio é grande obstáculo ao progresso moral de qualquer espírito. O Espiritismo não condena a criatura que pratica o suicídio: desvenda a condição de fragilidade na fé e o vazio existencial de toda pessoa levada ao suicídio. O material de esclarecimento tem começo com as obras do Codificador, Allan Kardec, muito especialmente a extraordinária obra O CÉU E O INFERNO. Na 2ª parte da obra, Kardec faz belíssimo trabalho, trazendo depoimentos de espíritos suicidas. Cada espírito expõe seu depoimento doloroso, relatando tanto a experiência corpórea quanto aos sofrimentos após a morte. São em número de nove os espíritos que relatam com nudez e clareza seu profundo remorso, as imensas torturas de consciência, o arrependimento doloroso e os esforços que promovem na recuperação dos valores íntimos.
Estudemos mais dois casos muito interessantes em O CÉU E O INFERNO, cap. V: Suicidas, Editora LAKE.
1 - O SUICÍDIO POR PAIXÃO AMOROSA (pág. 243)
Louis G. jovem oficial-sapateiro era noivo de Victorine R., ambos eram franceses e estavam prestes a casar, pois as proclamas já estavam sendo publicadas. Certo dia, como já era de costume, Louis fora jantar em casa de Victorine. Estando todos à mesa, sobreveio uma controvérsia entre os noivos, por motivo de alguma futilidade qualquer.
Louis, muito contrariado e aborrecido, deixou a mesa, dizendo não mais voltar.. No outro dia, já arrependido voltou a pedir perdão.
Victorine, amedrontada e prejulgando abriu a porta da casa e recusou-se terminantemente à reconciliação. Muitos dias se passaram sem que cedesse à rogativa de perdão por parte de Louis. Não desanimando de seu intento amoroso, foi ele tentar mais uma vez a reconciliação, como é rotineiro entre os noivos. Chegando à casa da moça, bateu na porta de forma que fosse reconhecido, mas esta permaneceu fechada. Recusaram abrir-lhe.
Desesperado, ele gritou, pediu perdão em voz alta; chamava pela noiva e nada: ninguém lhe atendia. Desanimado depois de muitos protestos e sentidas rogativas, disse:
Adeus, pois, cruel! - exclamou o pobre moço.
Adeus para sempre. Trate de procurar um marido que te estime tanto como eu. Logo em seguida, ouviram um gemido abafado, um baque como de um corpo escorregando pela porta.
Decorrido determinado tempo, um senhor, passando por ali, viu um corpo estendido na soleira da porta. Victorine, abrindo então a porta, reconhece estendido sobre o lajedo, pálido, inanimado, o noivo. Apressaram-se a socorrê-lo, mas para logo se percebeu que tudo seria inútil, visto que ele cometera suicídio, cravando uma faca no peito... Aqui acaba melancolicamente o romance frustrado dos jovens franceses.
O espírito Louis G. foi evocado por Kardec para enriquecer seus aprofundados estudos.
Pouco recuperado do gesto tresloucado, afirma o jovem:
1 - Victorine era uma ingrata e eu fiz mal em suicidar-me por ela. Era somente paixão, pois, se fosse amor puro, eu me teria poupado de lhe causar um desgosto.
2 - Não fui à sua casa com a intenção de me matar. Foi somente à vista de sua obstinação que perdi a razão e cometi o suicídio.
3 - Fiz mal, deveria resignar- me... Fui fraco e sofro as conseqüências da minha fraqueza.
4 - A paixão cega o homem, ao ponto de obrigá-lo a praticar loucuras. Que os jovens e as pessoas mais amadurecidas não se deixem levar pela paixão, quando nos fracassos e frustrações do namoro e do casamento. É aí que devemos demonstrar o valor maior de nossa fé em Deus, em Jesus Cristo e em nós mesmos.
5 - Fiz mal em abreviar a vida. Não deveria fazê-lo. Era preferível tudo suportar a morrer antes do tempo. Em espírito, liberto da matéria, o jovem Louis G. percebe o mundo de sombras que criou para si mesmo e julga que deveria suportar com humildade os fracassos da vida humana.
6 - Sou, portanto, infeliz. Sofro e é sempre ela que me faz sofrer, a ingrata. Aparece-me sempre à sua porta...
Quanto a responsabilidade da jovem Victorine, no triste episódio, respondeu o espírito São Luís:
- A moça tem responsabilidade no ato tresloucado de Louis, porque não o amava verdadeiramente. Ela procurava uma ocasião de descartar-se e assim o fez em começo de ligação (noivado), o que viria a fazer mais tarde. A jovem Victorine, em verdade, não tinha real interesse em desposar Louis G.; esperava o momento oportuno para acabar com o noivado. E a oportunidade surgiu numa discussão em um jantar na sua casa. Mas os laços afetivos entre Victorine e Louis G. já estavam profundamente ligados de consciência e coração perante as Leis Divinas.
2° - Neste caso, a sua responsabilidade decorre de haver alimentado sentimentos dos quais não participam o moço?. - R. Sim.
O Espiritismo evangélico nos recomenda não brincarmos com os sentimentos alheios, fingindo amar, fingindo apaixonar-nos, fingindo gostar. Estaremos pois, na verdade, enganando a nós mesmos.
3° - E o suicídio de Louis tem desculpa pelo desvario que lhe acarretou a obstinação de Victorine? - R. Sim, pois o suicídio oriundo do amor é menos criminoso aos olhos de Deus, de que o suicídio de quem procura libertar-se da vida por motivos de covardia.
Por este caso amoroso de casal de noivos, observamos as implicações das almas, ligando-se pelos sentimentos apaixonados, provocando mudanças drásticas no destino de cada um deles. Embora a responsabilidade de Louis seja atenuada devido à ingenuidade de seu ato, é óbvio que não deixará por isso de passar pelos lances mais tristes, dolorosos e sombrios das experiências de suicida. Tenhamos neste caso uma grande lição para todos jovens ou adultos, a fim de que não se entreguem às forças obscuras das paixões amorosas.
Cuidemos melhor de nós mesmos, cultivando a fé, a oração e a leitura evangelizada e melhorando nossos sentimentos.
2- VÍTIMA DE ESPÍRITO OBSESSOR VINGATIVO
(PÃO. 254)
Antoine Bell era o caixa de uma casa bancária no Canadá. Suicidou-se em 28 de fevereiro de 1865. Era um homem pacato e chefe de numerosa família. Aos vinte anos, passou a imaginar ter comprado um tóxico do qual se serviu para envenenar alguém.
Esta idéia obsessiva perseguia-o por toda parte, ao ponto de lhe tirar o sono, a paz e o sossego de viver. A família muito sofria com o seu estado de constantes alucinações terríveis. Não suportando tal terremoto de emoções e idéias tenebrosas, veio a cometer suicídio. Evocado, passa a narrar suas experiências, confessa as causas de seus sofrimentos; relata sua encarnação anterior: vivia ele numa cidade banhada pelo Mediterrâneo e enamorou-se de uma bela moça que lhe correspondia às emoções. Por ser pobre, foi repelido pela família da namorada. A mulher amada disse-lhe que se casaria com o filho de rico negociante, cujos negócios atravessavam para além de dois mares. Louco de dor, pela irremediável perda da eleita de seu coração, resolveu acabar com a própria vida, não sem antes assassinar por envenenamento, na véspera do casamento, o detestado rival, por ciúme feroz, saciando o seu forte desejo de vingança. Com a idéia de aproveitar-se do crime já cometido, a esperança de recobrar a jovem por quem se apaixonara, renasceu em seu coração e acabou por não realizar o projeto do suicídio. De seu depoimento selecionamos:
1 - Tinha em mim, como que vaga intuição da minha inata fraqueza, bem como da culpa anterior, cuja lembrança, em estado latente, conservava. O gritante remorso do crime cometido em vida passada permanecia vivo na sua imaginação, na sua vida mental, em seu inconsciente.
2 - Mas um espírito obsessor e vingativo, que não era outro senão o pai da minha vítima, facilmente se apoderou de mim e fez reviver no meu coração, como em mágico espelho, as lembranças do passado.
Notemos o que é o destino em cada espírito.
Quem mais guardou ódio no coração foi o pai do moço assassinado por Antoli Bell, em vida pretérita, na França, e se tornou na atual encarnação seu obstinado obsessor. Com nossas ações, plantamos as sementes do destino.
3 - Fascinado por esse demônio obsessor, deixei-me arrastar para o suicídio. Foi levado ao suicídio pelo obsessor (o pai), que conservava muito ódio, por ter criado a infelicidade de seu filho, justamente na véspera de seu casamento.
4 - Sou muito culpado realmente, porém, menos do que se deliberasse por mim mesmo.
5 - Os suicidas da minha categoria, incapazes por sua fraqueza de resistir aos obsessores, são menos culpados e menos punidos do que aqueles que abandonam a vida por efeito exclusivo da própria vontade.
6 - ... orai por mim, para que adquira a energia, a força necessária para não ceder à prova do suicídio voluntário, prova a que serei submetido - dizem-me - na próxima encarnação. A maior tentação, o maior problema, a maior dificuldade do suicida será enfrentar a forte tentação de repetir o suicídio na próxima encarnação.
Solicita o socorro e ajuda das preces dos encarnados, a fim de fortalecer-se para vencer na dura experiência.
7 - O arrependimento, bem o sabeis, é apenas preliminar indispensável à reabilitação, mas não é suficiente para libertar o culpado de todas as penas.
Deus não se contenta com promessas, sendo preciso a prova por atos, do retorno ao bom caminho. (Guia do médium).
O arrependimento é a retomada do destino; o espírito reconsidera seus atos, seus crimes, as conseqüências desastrosas de seus desatinos para si mesmo e traça planos sérios de trabalho, a começar dentro de si mesmo, para reparar suas faltas e vencer-se em futura encarnação, reconstruindo o seu destino para

 INFORMAÇÃO:
REVISTA ESPÍRITA MENSAL
ANO XXXIII N° 387
DEZEMBRO 2008
Publicada pelo Grupo Espírita Casa do Caminho -
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