Pesquisar este blog

Páginas

domingo, 31 de maio de 2015

09  esboço de o livro dos médiuns
10=33
Allan Kardec - O Livros dos Médiuns - Parte Segunda - Manifestações Espíritas - cap. 2 - Manifestações Físicas
Manifestações Inteligentes
65 No que acabamos de ver, seguramente não há nada que nos revele a intervenção de um poder oculto, e esses fatos poderiam perfeitamente se explicar pela ação de uma corrente elétrica ou magnética ou de um fluido qualquer. Essa foi, de fato, a primeira solução dada a tais fenômenos, e com razão podia passar por muito lógica. Ela teria, sem contestação, prevalecido se outros fatos não tivessem demonstrado a sua insuficiência; esses fatos são as provas de inteligência que eles revelaram; acontece que, como todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente, ficou evidente que, mesmo admitindo que a eletricidade ou qualquer outro fluido exercesse uma ação, havia a presença de uma outra causa. Que causa era essa? Qual seria essa inteligência? É o que a sequência das observações fez conhecer.
66 Para que uma manifestação seja inteligente, não é necessário que seja eloquente, espirituosa ou sábia; basta que seja um ato livre e voluntário, que exprima uma intenção ou responda a um pensamento. Seguramente, quando se vê um cata-vento girando, é certo que obedece apenas a uma impulsão mecânica do vento, mas, caso se reconhecesse nos movimentos do cata-vento sinais intencionais, se girasse à direita ou à esquerda, rapidamente ou com lentidão, atendendo a um comando, seria forçoso admitir não que o cata-vento é inteligente, mas que obedece a uma inteligência. É o que aconteceu com a mesa.
67 Vimos a mesa se mover, levantar-se, dar pancadas sob a influência de um ou de vários médiuns. O primeiro efeito inteligente notado foi o de ver esses movimentos obedecer a um comando; assim, sem mudar de lugar, a mesa se levantava alternativamente sobre o pé designado; depois, ao cair, batia um número determinado de vezes, respondendo a uma questão. Outras vezes a mesa, sem o contato da pessoa, passeava sozinha pela sala, indo à direita ou à esquerda, para frente ou para trás, executando diversos movimentos, atendendo à ordem dos assistentes. É evidente que afastamos toda a suposição de fraude, que admitimos a perfeita lealdade dos assistentes, atestada por sua honorabilidade e seu absoluto desinteresse. Falaremos mais adiante das fraudes contra as quais é prudente se manter em guarda.
68 Por meio das batidas e especificamente dos estalos no interior da madeira de que acabamos de falar, constatamos efeitos ainda mais inteligentes, como a imitação do rufar de tambores, do detonar de armas de guerra com fogo de fila ou do pelotão, da descarga de canhões; depois, o ruído de uma serra, as batidas de martelo, o ritmo de diferentes melodias etc. Era, como se compreende, um vasto campo aberto à exploração. Depois se presumiu que, uma vez que aí houvesse uma inteligência oculta, deveria poder responder a perguntas, e ela respondeu, de fato, por sim ou não, de acordo com um número de batidas convencionadas. Eram respostas bem insignificantes, por isso surgiu a ideia de fazer designar por batidas cada uma das letras do alfabeto e de compor, assim, palavras e frases.
69 Esses fatos, repetidos à vontade por milhares de pessoas e em todos os países, não podiam deixar dúvida sobre a natureza inteligente das manifestações. Foi então que surgiu uma nova explicação para o fato pela qual essa inteligência não seria outra senão a do médium, do interrogador ou mesmo dos assistentes. A dificuldade era explicar como essa inteligência podia se refletir na mesa e se exprimir por meio de batidas, desde que se averiguou que, se as batidas não eram dadas pelo médium, eram dadas, então, pelo pensamento; mas, se o pensamento provocasse as batidas, resultava num fenômeno ainda mais prodigioso do que se havia pensado e presenciado. A experiência não tardou em demonstrar a impossibilidade de tal opinião. De fato, as respostas se encontravam geralmente em oposição formal ao pensamento dos assistentes, muito além do alcance intelectual do médium e mesmo em línguas ignoradas por ele ou relatando fatos desconhecidos por todos. Os exemplos são tão numerosos que é quase impossível que alguém que tenha se ocupado um pouco das comunicações espíritas não os tenha testemunhado muitas vezes. Em relação a isso, citaremos apenas um exemplo, que nos foi relatado por uma testemunha ocular.
70 Num navio da marinha imperial francesa, em missão nos mares da China, toda a tripulação, desde os marinheiros até o estado-maior, se ocupava da experiência das mesas falantes. Tiveram a ideia de evocar o Espírito de um tenente desse mesmo navio, morto há dois anos. Ele veio e, depois de diversas comunicações que impressionaram a todos, disse o que se segue, por meio de batidas: Eu vos suplico insistentemente que paguem ao capitão a soma de... (ele indicava a quantia), que eu lhe devo e que lamento não ter podido lhe reembolsar antes de morrer. Ninguém conhecia o fato; o próprio capitão tinha esquecido o débito, que, aliás, era muito pequeno; mas, ao verificar os seus apontamentos, encontrou a anotação da dívida do tenente, e a quantia indicada era perfeitamente exata. Perguntamos: do pensamento de quem essa indicação podia ser reflexo?

71 Aperfeiçoou-se a arte das comunicações pelas pancadas alfabéticas, mas o processo era muito lento; porém, obteve-se algumas comunicações de certa extensão, assim como interessantes revelações sobre o mundo dos Espíritos. Eles mesmos indicaram outros meios, e assim se deve a eles a descoberta das comunicações escritas.
As primeiras comunicações assim recebidas aconteceram prendendo- se um lápis ao pé de uma mesa leve, colocada sobre uma folha de papel. A mesa, uma vez em movimento pela influência de um médium, punha-se a traçar caracteres, depois palavras e frases. Simplificou-se sucessivamente esse processo, com mesinhas do tamanho da mão, feitas para isso, depois com cestas, caixas de papelão e, por fim, com simples pranchetas. A escrita era tão corrente, tão rápida e tão fácil como a manual, mas reconheceu-se mais tarde que todos esses objetos eram, definitivamente, apenas apêndices, verdadeiras lapiseiras desnecessárias desde que o próprio médium segurasse com a sua mão o lápis; a mão levada por um movimento involuntário escrevia sob o impulso dado pelo Espírito e sem a ajuda da vontade ou do pensamento do médium. Desde então, as comunicações do além-túmulo são como a correspondência habitual entre os vivos. Voltaremos a esses diferentes meios, que explicaremos detalhadamente; resumimos para mostrar a sucessão dos fatos que conduziram à constatação, nesses fenômenos, da intervenção de inteligências ocultas, ou seja, de Espíritos.