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terça-feira, 26 de maio de 2015

09  esboço de o livro dos médiuns

C B - Aula 09 - Esboco De # O Livro Dos Mediuns(2).doc 6-30

15 Mencionada a palavra milagre, uma breve consideração sobre o assunto não estará deslocada neste capítulo sobre o maravilhoso.

No seu significado primitivo e pela sua etimologia, a palavra milagre significa coisa extraordinária, coisa admirável de ver; mas esta palavra, como muitas outras, se degenerou do sentido original, e hoje se diz (segundo a Academia) um ato do poder divino contrário às leis comuns da natureza. Este é, de fato, seu significado usual, e é somente por comparação e de maneira figurada que se aplica às coisas comuns que nos surpreendem e cuja causa é desconhecida. Não é de modo algum nossa intenção examinar se Deus pôde julgar útil, em algumas circunstâncias, abolir as leis estabelecidas por Ele mesmo; nosso objetivo é demonstrar unicamente que os fenômenos espíritas, por mais extraordinários que possam parecer, não anulam de modo algum essas leis, não têm nenhum caráter miraculoso nem são maravilhosos ou sobrenaturais. O milagre não se explica; os fenômenos espíritas, ao contrário, se explicam de modo racional; não são, portanto, milagres, mas simples efeitos que têm sua razão de ser nas leis gerais. O milagre ainda tem uma outra característica: o de ser raro e isolado. Acontece que, a partir do momento em que um fato se reproduz, por assim dizer, à vontade e por diversas pessoas, não pode ser considerado um milagre.

A ciência todos os dias faz milagres aos olhos dos ignorantes; eis porque antigamente os que sabiam mais que as pessoas comuns eram considerados bruxos e, como se acreditava que toda ciência sobrehumana vinha do diabo, eram queimados. Hoje estamos muito mais civilizados; contentam-se em enviá-los aos manicômios.

Que um homem realmente morto, como dissemos, seja trazido de volta à vida por intervenção divina, eis aí um verdadeiro milagre, porque isso é contrário às leis da natureza. Mas, se esse homem tiver apenas a aparência da morte, se ainda há nele um resto de vitalidade latente e se a ciência, ou uma ação magnética, conseguir reanimá-lo, será para as pessoas esclarecidas um fenômeno natural, mas, aos olhos de um ignorante, o fato passará por miraculoso, e o autor da façanha será perseguido a pedradas ou venerado, conforme o caráter dos indivíduos.

Que no meio de certo campo magnético um físico lance um papagaio magnetizado e faça atrair para ele um raio, esse novo Prometeu5 será certamente visto como possuidor de um poder diabólico; diga-se de passagem, Prometeu nos parece ter singularmente precedido Franklin6; mas Josué7, parando o movimento do Sol, ou antes da Terra, operou verdadeiro milagre, porque não conhecemos nenhum magnetizador dotado de tão grande poder para operar esse prodígio. De todos os fenômenos espíritas, um dos mais extraordinários é, sem dúvida, o da escrita direta, que demonstra do modo mais evidente a ação das inteligências ocultas; mas o fato do fenômeno ser produzido por seres invisíveis não é mais miraculoso do que todos os outros fenômenos que se devem aos Espíritos, porque esses seres que povoam os espaços são um dos poderes da natureza, cuja ação é incessante sobre o mundo material e sobre o mundo moral.

O Espiritismo, ao nos esclarecer sobre esse poder, nos dá a chave para uma multidão de coisas inexplicadas e inexplicáveis por qualquer outro meio que, em tempos antigos, passaram por prodígios, milagres; ele revela, como no magnetismo, uma lei, senão desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou, melhor dizendo, uma lei da qual se conheciam os efeitos, visto que produzidos em todos os tempos, mas não se conhecia a lei, e foi a ignorância dessa lei que gerou a superstição. Conhecida a lei, o maravilhoso desaparece, e os fenômenos entram na ordem das coisas naturais. Eis por que os espíritas não fazem mais milagres ao fazer uma mesa girar ou os mortos escreverem do que o médico ao reviver um moribundo ou o físico ao atrair um raio. Aquele que pretendesse, com a ajuda dessa ciência, fazer milagres seria um ignorante em relação ao assunto ou um farsante.

16 Os fenômenos espíritas, do mesmo modo que os fenômenos magnéticos, antes que se tivesse conhecido a sua causa, devem ter sido considerados prodigiosos; acontece que, da mesma forma que os descrentes, os muito inteligentes, os donos da verdade, que julgam ter o privilégio exclusivo da razão e do bom senso, não acreditam que uma coisa seja possível quando não a compreendem; eis porque todos os fatos considerados milagres são motivo para suas zombarias; como a religião contém um grande número de fatos desse gênero, não acreditam na religião, e daí para a incredulidade absoluta é apenas um passo. O Espiritismo, ao explicar a maior parte desses fatos, lhes dá uma razão de ser. Ele vem, portanto, em ajuda à religião, ao demonstrar a possibilidade de certos fatos que, por não terem mais o caráter miraculoso, não são menos extraordinários, e Deus não é nem menor nem menos poderoso por não ter abolido suas leis. De quantos gracejos as levitações de São Cupertino8 não foram alvo! Acontece que a levitação dos corpos pesados é um fato explicado pelo Espiritismo; nós, pessoalmente, fomos testemunhas oculares, e o senhor Home9, assim como outras pessoas de nosso conhecimento, repetiu muitas vezes o fenômeno produzido por São Cupertino. Portanto, esse fenômeno enquadra-se na ordem das coisas naturais.

17 No número dos fatos desse gênero, é preciso pôr em primeiro lugar as aparições, por serem mais frequentes.

A de Salette10, que divide até mesmo o clero, não tem nada de estranho para nós. Seguramente, não podemos afirmar que o fato aconteceu, por não possuirmos a prova material; mas, para nós, é possível, uma vez que milhares de fatos semelhantes e recentes são de nosso conhecimento; acreditamos nisso não somente porque conhecemos fatos semelhantes, mas porque sabemos perfeitamente a maneira como se produzem. Quem quiser se reportar à teoria das aparições, da qual trataremos mais adiante, verá que esse fenômeno é tão simples e tão autêntico quanto uma multidão de fenômenos físicos que se contam como prodigiosos apenas por falta de se ter a chave que os explique. Quanto à personagem que se apresentou a Salette, é outra questão; sua identidade não foi de modo algum demonstrada; simplesmente admitimos que uma aparição pode ter acontecido, o resto não é de nossa competência; é respeitável que cada qual possa guardar suas convicções a respeito; o Espiritismo não tem que se ocupar disso; dizemos somente que os fenômenos espíritas nos revelam novas leis e nos dão a chave para uma multidão de coisas que pareciam sobrenaturais; se alguns dos fatos que passaram por miraculosos encontram nele uma explicação lógica, é motivo suficiente para não se apressar a negar o que não se compreende.

Os fenômenos espíritas são contestados por algumas pessoas precisamente porque parecem estar além da lei comum e por elas não os saberem explicar. Dai-lhes uma base racional e a dúvida cessa. O esclarecimento no século dezenove, de muita conversa inútil, é um poderoso motivo de convicção; temos visto todos os dias pessoas que não foram testemunhas de nenhum fato espírita, que não viram nenhuma mesa girar, nenhum médium escrever e que estão tão convencidas quanto nós unicamente porque leram e compreenderam. Se acreditássemos apenas no que os olhos podem ver, nossas convicções se reduziriam a bem pouca coisa.