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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A Fé e a Credulidade

*A Fé e a Credulidade*

Margarete Acosta e Elio Mollo

*Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as  épocas da Humanidade.*
ALLAN KARDEC

A Fé é uma das características do homem, encarnado ou não, assim como o amor e a esperança. Mas o que é fé? No dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, esse substantivo feminino quer dizer firmeza na execução de uma promessa ou de um compromisso e crença ou confiança. 

Fé é muito mais que crença e com ela não se confunde. A esperança, um elemento intrínseco da estrutura da vida, da dinâmica e do espírito do homem está intimamente ligada à fé. 

Até o presente a fé só foi compreendida no sentido religioso, porque o Cristo a revelou como poderosa alavanca, e porque nele só viram um chefe de religião. 

Mas há uma distinção entre religião e fé. Religião é uma organização, como rabinos ou padres, bispos e tradições. Ter fé não significa necessariamente reconhecer qualquer uma dessas organizações. Somos conectados diretamente a Deus sem precisar de rabinos ou padres. 

No seu aspecto religioso, a fé é a crença nos dogmas particulares que constituem as diferentes religiões, e todas elas têm os seus artigos de fé. 

Nesse sentido a fé pode ser raciocinada ou cega. A fé cega nada examina, aceitando sem controle o falso e o verdadeiro, e a cada passo se choca com a evidência da razão. Levada ao excesso, produz o fanatismo. 

No homem, a fé é o sentimento inato de seus destinos futuros; é a consciência que ele tem das faculdades imensas depositadas em germe no seu íntimo, a princípio em estado latente, e que lhe cumpre fazer que desabrochem e cresçam pela ação da sua vontade ativa. 

O magnetismo é uma das maiores provas do poder da fé posta em ação. É pela fé que ele cura e produz esses fenômenos singulares, qualificados outrora de milagres. Se todos os encarnados se achassem persuadidos da força que em si trazem, e se quisessem por a vontade a serviço dessa força, seriam capazes de realizar o que, até hoje, eles chamaram prodígios e que, no entanto, não passa de um desenvolvimento das faculdades humanas. 

A fé sincera e verdadeira é sempre calma, faculta a paciência que sabe esperar, porque, tendo seu ponto de apoio na inteligência e na compreensão da coisas, tem a certeza de chegar ao objetivo visado. 

Existe uma distinção importante entre fé racional e irracional. Enquanto a fé racional é o resultado da atividade interior da pessoa, em pensamento ou sentimento, a fé irracional é a submissão a determinada coisa que se aceita como verdadeira, independentemente de sê-lo ou não. O elemento essencial em toda a fé irracional é o caráter passivo, seja o seu objeto um ídolo, um líder, uma ideologia. 

Na esfera das relações humanas, ter fé em outra pessoa significa estar certo da sua essência, isto é, da confiança e imutabilidade das suas atitudes fundamentais. No mesmo sentido, podemos ter fé em nós mesmos, não na constância das nossas opiniões, mas na nossa orientação básica em relação à vida, na matriz da estrutura do nosso caráter. Essa fé é condicionada pela experiência do eu, pela nossa capacidade de dizer “eu” legitimamente, pelo sentido da nossa identidade. 

A certeza de alguma coisa, Isto é, desta fé racional, somente é conseguida através de esforço, de estudo, ou seja, para se adquirir a verdadeira fé é indispensável o trabalho, o raciocínio, o estudo e o esforço, quando, então, se chega a uma conclusão segura. 

Embora haja certas semelhanças entre fé e credulidade, as diferenças são enormes e fundamentais. A credulidade é a aceitação fácil e ingênua de tudo. 

É acreditar em algo ou em alguém sem fundamentação. A fé é depositar confiança em algo ou alguém com a certeza de que essa confiança foi testada e fundamentada. 

Necessário guardar-se de confundir a fé com a presunção. A verdadeira fé se alia à humildade. Aquele que a possui deposita sua confiança em Deus, mais do que em si mesmo, pois sabe que, simples instrumento da vontade de Deus, nada pode sem Ele. A presunção é menos fé que orgulho, e o orgulho é sempre castigado cedo ou tarde, pela decepção e os malogros que lhes são infligidos. 

A fé necessita de uma base, e essa base é a perfeita compreensão daquilo que se deve crer. Para crer, não basta ver, é necessário sobretudo compreender. 

Não há dúvida de que a fé não pode ser prescrita, ou o que é ainda mais justo: não pode ser imposta. Não, a fé não se prescreve, mas se adquire, e não há ninguém que esteja impedido de possuí-la, mesmo os mais refratários. 

*Obras consultadas:* 

O Evangelho Segundo o Espiritismo  Allan Kardec 

A Revelação da Esperança - Erich Fromm 

Convivência - Emmanuel



*(Originalmente publicado no Informativo CEOS/ IAM, Entre nós - Nº 54 e reproduzido com autorização do autor)*