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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

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Nosso Lar 07_12

12

Dívida agravada

Enquanto outros servidores da instituição por nós passavam, à pressa, com o evidente intuito de auxiliar, o dileto  companheiro de Druso desceu a escadaria do templo,  em nossa companhia, explicando:

- Muitos companheiros de serviço valem-se deste horário para o culto espontâneo do amor fraterno. Ouvem aqui neste locutório os desesperados e os tristes e, tanto quanto lhes é possível, administram-lhes medicação e consolo, não somente os exortando à compreensão e à serenidade, mas também os acompanhando aos círculos tenebrosos ou à esfera dos encarnados, para a obra de assistência aos laços afetivos que  lhes perturbam o coração.  Nesse instante, entramos mais diretamente em contacto com os grupos rumorosos. Agora, adaptada nossa visão à sombra reinante, conseguíamos diferençar as figuras lamentáveis e exóticas que nos cercavam, agoniadas... Eram mulheres de duro  semblante que a miséria desfigurava e homens de fisionomias torturadas pelo ódio e pela angústia.

Dificilmente, de nossa parte, poderíamos avaliar-lhes  a idade, segundo o escalão terrestre. O infortúnio deles convertera-os  em fantasmas de amargura,  quase a irmaná-los integralmente no  mesmo tipo de configuração exterior. Muitos mostravam mãos  semelhantes a ressequidas garras, e em quase todos o olhar enraivecido ou medroso revelava a dolorosa fulguração da mente que desceu ao poço da  loucura.

Preces comoventes misturavam-se a clamores sinistros de revolta.

E, vendo, contristados, a multidão em movimentos rudes, ante as portas abertas do santuário tranqüilo,  perguntamos ao  Assistente por que não se acolhia toda ela ao templo hospitaleiro, então  quase deserto.

Silas, contudo, designando a entrada do edifício que vínhamos de deixar, fixou a portaria radiante que, da forte penumbra, mais  se nos afigurava um túnel aberto para a luz,  e esclareceu:

- Efetivamente, reportam-se vocês a medida desejável.  Entretanto, apenas ingressam no recinto sagrado quantos lhe podem suportar  a claridade com o respeito devido. Quase todos os irmãos que se congregam nesta praça trazem mutilações que a perversidade lhes impôs ou são portadores de sentimentos tigrinos que petições comoventes mal encobrem. E, com semelhantes disposições, não resistem ao impacto da claridade dominante, dosada em fotônios específicos a se caracterizarem por determinado teor eletromagnético, indispensável à garantia de nossa casa.

Muitos de nossos  irmãos, aqui desarvorados, clamam, com a boca, que anseiam pelas vantagens  da prece, na intimidade do santuário; no entanto, por dentro, lá  estimariam tripudiar sobre o nome sublime de nosso Pai Celeste, no culto  à ironia e à blasfêmia. Para que não tumultuem a atmosfera divina que nos  cabe oferecer à oração pura e reconfortante, recomendam nossos orientadores que a luz permaneça graduada contra distúrbios e prejuízos, facilmente evitáveis.

Hilário, espantado, considerou:

- Significa isso que somente a sincera compunção da alma entrará em sintonia com as forças eletromagnéticas imperantes no recinto...

- Exatamente assim é - confirmou o interlocutor. - Nossa instituição permanece de braços abertos à provação e ao  sofrimento, mas não à rebeldia e ao desespero. De outra sorte, seria  condená-la ao aniquilamento e ao descrédito,  na região atormentada em que se localiza.

Nesse ponto da conversação, fomos interrompidos por dezenas de braços ressequidos a implorarem socorro. 

Silas fitava-os, compadecido, mas sem se deter, até que nosso passo foi cortado por apressada mulher, exclamando, ansiosa:

- Assistente Silas! Assistente Silas!...

Nosso amigo identificou-a, porque, parando de súbito,  estendeu lhe a destra amiga, murmurando:

- Luísa, a que vens?

Defrontavam-se em ambos a curiosidade e a aflição.

A senhora desencarnada, com sinais de irreprimível angústia, gritou sem preâmbulos:

- Socorro!... Socorro!... Minha filha, minha pobre Marina esmorece... Tenho lutado com todas as minhas forças para  furtá-la ao suicídio, mas agora me sinto enfraquecida e incapaz...

Os soluços sufocaram-lhe a garganta, inibindo-lhe a voz.

- Fala! - disse o orientador de nossa excursão, em tom imperativo, como se o alarme daquele instante lhe obscurecesse  a serenidade mental, imprescindível ao entendimento da nova  situação.

A infeliz, ajoelhada agora, ergueu os olhos lacrimosos  e suplicou:

- Assistente, perdoe-me a insistência em falar-lhe de  meu infortúnio, mas sou mãe... Minha desventurada filha pretende  matar-se esta noite, comprometendo-se, ainda mais,  com as trevas da sua consciência!...

Silas aconselhou-lhe a volta ao lar terreno, como lhe  fosse possível, e, dando-nos as mãos, promoveu a viagem rápida para  o objetivo a que devíamos atender.

Em caminho, informou:

- Trata-se de companheira da Mansão, reencarnada há quase trinta anos, sob os auspícios de nossa casa.

Prestar-lhe-emos  o necessário auxílio, ao mesmo tempo que vocês poderão examinar  um problema de débito agravado.

Notando que o nosso amigo entrara em silêncio, meu colega externou:

- É impressionante observar o número de mulheres em trabalho de oração e assistência nessas paragens...

Preocupado qual se achava, nosso generoso companheiro  tentou ensaiar um sorriso que lhe não chegou aos lábios, e juntou:

- Grande verdade... Raras esposas e raras mães demandam às regiões felizes sem os doces afetos que acalentam no seio... O  imenso amor feminino é uma das forças mais respeitáveis na Criação  divina.

Todavia, não houve mais tempo para qualquer outra divagação.

Atingíramos no plano físico pequena moradia constituída de três peças desataviadas e estreitas.

O relógio acusava alguns minutos depois de zero hora.

Acompanhando Silas, cuja presença deslocou diversas entidades da sombra que ali se ajuntavam com a manifesta intenção de  perturbar, ingressamos num quarto humilde.

Percebemos, sem palavras, que o problema era efetivamente desolador.

Junto de jovem senhora agoniada e exausta, uma menina  de dois a três anos choramingava, inquieta...

Via-se-lhe nos olhos  esgazeados e inconscientes o estigma dos que foram marcados por  irremediável sofrimento ao nascer.

Contudo, através da preocupação indisfarçável de Silas, era fácil reconhecer que a pobre senhora era o caso mais urgente para os  nossos cuidados.

A infeliz, de joelhos, beijava sofregamente a pequenina, mostrando a indefinível angústia dos que se despedem para  sempre.

Logo após, em movimento rápido, tomou de um copo em que se encontrava beberagem cujo teor tóxico não nos deixava qualquer dúvida. Antes, porém, de colá-lo à boca em febre,  eis que o  Assistente lhe disse em voz segura:

- Como podes pensar na sombra da morte, sem a luz da oração?

A desventurada não lhe ouviu a pergunta com os tímpanos de carne, mas a frase de Silas invadiu-lhe a cabeça qual rajada  violenta.

Lampejaram-lhe os olhos com novo brilho e o copo tremeu-lhe nas mãos, agora indecisas.

Nosso orientador estendeu-lhe os braços,  envolvendo-a  em fluidos anestesiantes de carinho e bondade.

Marina, pois era ela a irmã para quem aflito coração materno suplicara socorro, dominada de novos pensamentos,  recolocou o perigoso recipiente no lugar primitivo e, sob a vigorosa  influência do diretor de nossa excursão,  levantou-se automaticamente e  estirou-se no leito, em prece...

- " Deus meu, Pai de Infinita Bondade - implorou em voz alta -, compadece-te de mim e perdoa-me o fracasso! Não suporto  mais... Sem minha presença, meu marido viverá mais tranqüilo no  leprosário e minha desventurada filhinha encontrará corações caridosos que  lhe dispensem amor... Não tenho mais recursos... Estou doente...  Nossas contas esmagam-me... Como vencer a enfermidade que me devora,  obrigada a costurar sem repouso, entre o marido e a filhinha que me reclamam assistência e ternura? ...

Silas administrava-lhe passes magnéticos de prostração  e, induzindo-a a ligeiro movimento do braço, fez que ela mesma, num impulso irrefletido, batesse com força no copo fatídico, que rolou no piso do quarto, derramando o liquido  letal.

Em lágrimas copiosas, a pobre criatura insistiu,  desolada:

- Ó Senhor, compadece-te de mim!...

Reconhecendo no próprio gesto impensado a manifestação  de uma força estranha a entravar-lhe a possibilidade da morte  deliberada naquele instante, passou a orar em silêncio, com evidentes  sinais de temor e remorso, atitude mental essa que lhe acentuava a passividade e da qual se valeu o Assistente para conduzi-la ao sono  provocado.

Silas emitiu forte jacto de energia fluídica sobre o córtex encefálico dela, e a moça, sem conseguir explicar a si mesma a  razão do torpor que lhe invadia o campo nervoso,  deixou-se adormecer pesadamente, qual se houvera sorvido violento narcótico.

O Assistente interrompeu a operação socorrista e falou-nos, bondoso:

- Temos aqui asfixiante problema de conta agravada.

E designando a jovem mãe, agora extenuada, continuou - Marina veio de nossa Mansão para auxiliar a Jorge e  Zilda, dos quais se fizera devedora. No século passado, interpôs-se entre  os dois, quando recém-casados, Impelindo-os a deploráveis leviandades  que lhes valeram angustiosa demência no Plano Espiritual. Depois  de longos padecimentos e desajustes, permitiu o Senhor que muitos amigos intercedessem, junto aos Poderes Superiores, para que se lhes recompusesse o destino, e os três renasceram no mesmo quadro  social, para o trabalho regenerativo. Marina,  a primogênita do lar de  nossa irmã Luisa, recebeu a incumbência de tutelar a irmãzinha  menor, que assim se desenvolveu ao calor de seu fraternal carinho, mas,  quando moças feitas, há alguns anos, eis que, segundo o programa de serviço traçado antes da reencarnação, a jovem Zilda reencontra Jorge e reatam, instintivamente, os elos afetivos do pretérito.

Amam-se com fervor e confiam-se ao noivado. Marina, porém,  longe de corresponder às promessas esposadas no Mundo Maior,  pelas quais lhe cabia amar o mesmo homem, no silêncio da renúncia construtiva, amparando a irmãzinha, outrora repudiada esposa, nas lutas purificadoras que a atualidade lhe ofertaria, passou a maquinar projetos inconfessáveis,  tomada de intensa paixão. Completamente cega e surda aos avisos da sua consciência, começou a envolver o noivo da irmã em larga teia de seduções e, atraindo para o seu escuso objetivo o apoio de entidades caprichosas e enfermiças, por intermédio de doentios desejos, passou a hipnotizar o moço,  espontaneamente, com o auxílio dos vampiros desencarnados,  cuja companhia aliciara sem perceber... E Jorge,  inconscientemente dominado, transferiu-se do amor por Zilda à simpatia por Marina, observando que a nova afetividade lhe crescia assustadoramente no íntimo, sem que ele mesmo pudesse controlar-lhe a expansão... Decorridos breves meses,  dedicavam-se ambos a encontros ocultos, nos quais se comprometeram um com o outro na maior intimidade... Zilda notou a modificação do  rapaz, mas procurava desculpar-lhe a indiferença à conta de  cansaço no trabalho e dificuldades na vida familiar. Todavia, em faltando apenas duas semanas para a  realização do consórcio, surpreende-se a pobrezinha com a  inesperada e aflitiva confissão... Jorge expõe-lhe a chaga que lhe excrucia o mundo interior... Não lhe nega admiração e carinho, mas desde muito reconhece que somente Marina deve ser-lhe a companheira no  lar. A noiva preterida sufoca o pavoroso desapontamento que a  subjuga e,  aparentemente, não se revolta. Mas, introvertida e desesperada, consegue na mesma noite do entendimento a dose de formicida com que põe termo à existência física.

Alucinada de dor, Zilda desencarnada foi recolhida por nossa irmã Luísa, que já se achava antes dela em nosso mundo,  admitida na Mansão pelos méritos maternais. A genitora desditosa rogou  o amparo de nossos Maiores. Na posição de mãe, apiedava-se de ambas as jovens, de vez que a filha traidora, aos seus olhos, era mais infeliz que a filha escarnecida, embora esta última houvesse adquirido o grave débito dos suicidas, em seu caso atenuado pela alienação mental em que a moça se vira, sentenciada sem razão a inqualificável abandono... Examinado o assunto,  carinhosamente, pelo Ministro Sânzio, que conhecemos pessoalmente, determinou ele que Marina fosse considerada devedora em conta agravada por ela mesma. E, logo após a decisão, providenciou a fim de que Zilda fosse recambiada ao lar para receber aí os cuidados merecidos.  Marina falhara na prova de renúncia em favor da irmã que lhe era credora generosa, mas condenara-se ao sacrifício pela mesma irmãzinha, agora imposta pelo aresto da Lei ao seu convívio,  na situação de filha  terrivelmente sofredora e imensamente amada. Foi assim que Jorge e Marina, livres, casaram-se,  recolhendo da Terra a comunhão afetiva pela qual suspiravam;  entretanto, dois anos após o enlace, receberam Zilda em rendado berço, como filhinha estremecida. Mas... desde os primeiros  meses do rebento adorado, identificaram-lhe a dolorosa prova. Zilda, hoje chamada Nilda, nasceu surdo-muda e  mentalmente retardada, em conseqüência do trauma perispirítico experimentado na morte por envenenamento voluntário. Inconsciente e atormentada nos refolhos do ser pelas recordações asfixiantes do passado recente, chora quase que dia e noite... Quanto mais sofre, porém, mais ampla ternura recolhe dos pais que a amam com extremados desvelos de compaixão e carinho... A  vida corria-lhes regularmente, não obstante atribulada pelas provas naturais do roteiro, quando, há meses, Jorge foi apartado para o leprosário, onde se encontra em tratamento. Desde então,  entre o esposo doente e a filhinha infeliz, Marina, em seu débito agravado,  padece o abatimento em que a encontramos,  martelada igualmente  pela tentação do suicídio. Silenciou o Assistente.

Achávamo-nos, eu e Hilário, assombrados e comovidos.

O problema era doloroso do ponto de vista humano,  contudo encerrava precioso ensinamento da Justiça Divina.

Silas acariciou a moça prostrada e acentuou:

- Auxiliar-nos-á o Senhor para que se recupere e reanime.

Nesse instante, a irmã Luísa penetrou no recinto,  entre deprimida e ansiosa.

Inteirou-se de todas as ocorrências e agradeceu,  enxugando as lágrimas.

Silas, no entanto, interessado em conduzir o socorro até ao fim, administrou novos recursos magnéticos à mãezinha debilitada, e  então presenciamos um quadro inesquecível.

Marina ergueu-se em Espírito sobre o corpo somático e  pousou em nós o olhar vago e inexpressivo...

Nosso diretor, porém, como a despertar-lhe as percepções do Espírito, afagou-lhe as pupilas, com as mãos aureoladas de  fluidos luminescentes e, de repente, à maneira do cego que retorna à  visão, a pobre criatura viu a genitora que lhe estendia os braços  amigos e carinhosos.

Com lágrimas a lhe correrem dos olhos, refugiou-se-lhe no regaço, gritando de alegria:

- Mãe! minha mãe!... pois és tu?

Luísa acolheu-a docemente no colo afetuoso, qual se o  fizesse a uma criança doente e, mal reprimindo a emoção,  falou-lhe,  triste:

- Sim, filha querida, sou eu, tua mãe!... Rendamos graças a Deus por este minuto de entendimento.

E, beijando-a ternamente, embora aflita, continuou:

- Por que o desânimo, quando a luta apenas começa?

Ignoras que a dor é a nossa custódia celestial? que seria de nós, Marina,  se o sofrimento não nos ajudasse a sentir e raciocinar para o bem?  Regozijaste no combate que nos acrisola e salva para a obra de  Deus... Não convertas o amor em inferno para ti mesma e nem creias  consigas aliviar o esposo e a filhinha com a ilusão da fuga impensada.

Lembra-te de que o Senhor transforma o veneno de nossos erros em remédio salutar para o  resgate de nossas culpas... A enfermidade de nosso Jorge e a provação de  nossa Nilda constituem não somente o caminho abençoado de elevação  para eles mesmos, mas igualmente para teu espírito que se lhes  associa à experiência na trama da redenção!... Aprende a sofrer com humildade para que a tua dor não seja simplesmente orgulho ferido... Que  fizeste do brio de mulher e do devotamento de mãe? Olvidaste o culto  da oração que o lar te ensinou?

Enganaste-te, assim tanto, para  abraçar a covardia como glória moral? Ainda é tempo!... Levanta-te,  desperta, luta e vive!... Vive para recuperar a dignidade feminina que tisnaste com a nódoa da traição... Recorda a irmãzinha que partiu,  acabrunhada ao peso do fardo de aflição que lhe impuseste, e paga em  desvelo e sacrifício, ao pé da filhinha doente, a conta que deves à  Eterna Justiça!...

Humilha-te e resgata a própria consciência, com o  preço da expiação dolorosa, mas justa... Trabalha e serve, esperando em  Jesus, porque o Divino Médico te restituirá a saúde do esposo, para  que, juntos, possamos conduzir a pequenina enferma ao porto da necessária restauração. Não penses estar sozinha, nas longas e  ermas noites em que te divides entre a vigília e a desolação!...  Comungamos os mesmos sonhos, partilhamos as mesmas lutas!... Que paraíso haverá para os corações maternos que choram, além do túmulo,  senão a presença dos filhos abençoados, embora esses muitas vezes lhes ocasionem longos dias de angústia? Compadece-te de mim,  tua  mãe, por enquanto sentenciada ao sofrimento pelo amor com que te  ama!...

Calou-se Luísa, pois que singultos incessantes lhe abafaram a voz.

Marina, agora ajoelhada e lacrimosa, osculava-lhe as mãos, clamando em súplica:

- Mãe querida, perdoa-me! perdoa-me!...

Luísa ergueu-a com esforço e, dando-nos idéia dos calvários maternais que costumam prender as grandes mulheres, depois da morte, conduziu-a em passos vacilantes até à criança enferma e, acarinhando a fronte da pequenina, empapada de suor, implorou, humilde:

- Filha querida, não procures a porta falsa da deserção... Vive para tua filhinha, como permite o Senhor possa eu continuar vivendo por ti!...

A moça, renovada, rojou-se sobre a menina triste,  mas, como se a emotividade daquela hora lhe sufocasse a mente desperta, foi repentinamente atraída pelo corpo de carne, como o grânulo de ferro pelo ímã, e vimo-la acordar,  em pranto copioso, bradando, inconsciente:

- Minha filha!... minha filha!...

O Assistente, respeitoso, despediu-se de Luísa e afirmou:

- Louvado seja Deus! Nossa Marina ressurge,  transformada.

Afastamo-nos sem palavras.

Lá fora, no céu, nuvens distantes coroavam-se de luz aos clarões purpúreos da aurora e, de alma embriagada de reconhecimento e esperança, meditei na Infinita Bondade de Deus, que faz raiar, depois de cada noite, a bênção de novo dia. 

 Questões para estudo:

 1 - Leia o trecho e responda:

_ Quase todos os irmãos que se congregam nesta praça trazem mutilações que a perversidade lhes impôs ou são portadores de sentimentos tigrinos que petições comoventes mal encobrem. E, com semelhantes disposições, não resistem ao impacto da claridade dominante, dosada em fotônios específicos a se caracterizarem por determinado teor eletromagnético, indispensável à garantia de nossa casa._

_ Muitos de nossos  irmãos, aqui desarvorados, clamam, com a boca, que anseiam pelas vantagens da prece, na intimidade do santuário; no entanto, por dentro, lá  estimariam tripudiar sobre o nome sublime de nosso Pai Celeste, no culto  à ironia e à blasfêmia. Para que não tumultuem a atmosfera divina que nos  cabe oferecer à oração pura e reconfortante, recomendam nossos orientadores que a luz permaneça graduada contra distúrbios e prejuízos, facilmente evitáveis._

1.1 O que podemos dizer de mais este requisito para entrar na colônia?

1.2 Estão estes espíritos acostumados com a trevas, a presença de luz deverá ser dosada aos poucos?

1.3 Será que a emanação deles poderia atrapalhar a emissão de luz na colônia, causando algum tipo de interferência?

2 _ Para impedir o suicídio de Marina, Silas lhe sugeriu fazer uma prece. 

2.1 _ Como estas sugestões chegam até a assimilação do nosso cérebro, causando no caso de Marina o impedimento da conclusão do ato?

2.2 _ Porque os demais suicídios que são cometidos todos os dias no mundo todo não seriam pelo menos em grande parte evitados? O que fez o caso de Marina merecer atenção especial?

2.3 _ O que facilitou a assimilação da mensagem enviada por Silas para Marina? 

3 _ Gostaria que vocês comentassem sobre a parte da história de Marina onde recusou ajudar a irmã Zilda, onde acabou recebendo a mesma tarefa posteriormente mas com um adicional de cometimentos que foi gerado pelo ato suicida. O que vocês acham desta parte que narra mais um episódio da reencarnação?

Conclusão
                                                                       
                                                             QUESTÕES PROPOSTAS PARA ESTUDO     

1 - Leia o trecho e responda:

"Quase todos os irmãos que se congregam nesta praça trazem mutilações que a perversidade lhes impôs ou são 
portadores de sentimentos tigrinos que petições comoventes mal encobrem. E, com semelhantes disposições, não 
resistem ao impacto da claridade dominante, dosada em fotônios específicos a se caracterizarem por determinado 
teor eletromagnético, indispensável à garantia de nossa casa.

Muitos de nossos  irmãos, aqui desarvorados, clamam, com a boca, que anseiam pelas vantagens da prece, na 
intimidade do santuário; no entanto, por dentro, lá estimariam tripudiar sobre o nome sublime de nosso Pai Celeste, 
no culto à ironia e à blasfêmia. Para que não tumultuem a atmosfera divina que nos  cabe oferecer à oração pura e 
reconfortante, recomendam nossos orientadores que a luz permaneça graduada contra distúrbios e prejuízos, 
facilmente evitáveis."                

1.1 - O que podemos dizer de mais este requisito para entrar na colônia?

R - O socorro do Alto sempre se faz presente, mas é preciso que o espírito esteja em condições de recebê-lo. No caso do Templo existente em anexo à Mansão Paz, Silas explica que o local é dominado por intensa claridade que provém do teor eletromagnético dos mecanismos de proteção da Casa. Os espíritos encontrados no pátio externo ao Templo identificam-se pela baixa sintonia vibratória que freqüentam e habitam regiões de sofrimento do plano espiritual. Psiquicamente enfermos, encontram- -se em tal grau de demência que, se penetrassem no recinto, conforme explicação de Silas, não saberiam respeitar o local e iriam se entregar à ironia e à blasfêmia, imprecando contra Deus. Para que possa obter os benefícios que a oração sincera e sentida proporciona é preciso que o espírito esteja apto a recebê-los, percebendo que o sofrimento a que está entregue é conseqüência de sua própria semeadura e que a única forma de superação é a aceitação do flagelo sem rebelião e desespero, confiando na Justiça Divina e buscando a renovação necessária ao seu soerguimento. 

1.2 - Estão estes espíritos acostumados com a trevas, a presença de luz deverá ser dosada aos poucos?

R - Os espíritos em questão, como dissemos, encontram-se, psiquicamente, gravemente enfermos, com seus corpos espirituais mutilados pelas perversidades a que se dedicaram e nutrindo sentimentos de natureza inferior, conforme a descrição de André Luiz. Em tais condições, segundo explica Silas, não resistiriam ao impacto da claridade dominante no interior do Templo, o que viria aumentar-lhes o sofrimento. A luz divina não lhes será negada. Porém, será concedida à proporção da melhora de seus estados psíquicos.

1.3 - Será que a emanação deles poderia atrapalhar a emissão de luz na colônia, causando algum tipo de interferência?

R - Sem dúvida, a presença desses espíritos no ambiente da Instituição iria causar algum prejuízo à psicosfera reinante no local. Com suas vibrações totalmente eivadas de ódio, rancor e desejos de praticar o mal, se admitidos ao seu interior, poderia destruir todo o trabalho até então realizado em favor da recuperações dos que lá são atendidos, levanto a Mansão ao descrédito perante os que nela confiam.

2 - Para impedir o suicídio de Marina, Silas lhe sugeriu fazer uma prece. 

2.1 -  Como estas sugestões chegam até a assimilação do nosso cérebro, causando no caso de Marina o impedimento 
da conclusão do ato?

R - Conforme explica Allan Kardec, em "A Gênese", não há espaço vazio no Universo. Onde imaginamos que nada existe, o espaço é ocupado pelo fluido cósmico universal em suas múltiplas variações. Vivemos, pois, mergulhados num mar de fluidos, que funcionam como veículo do pensamento, propagando-o através do espaço. Assim, o pensamento, tanto dos encarnados, como dos desencarnados, toma forma e ganha o espaço, através do fluido universal, que lhe serve de veículo condutor. É dessa maneira que os pensamentos são conduzidos ao seu destino. O nosso perispírito é constituído de matéria idêntica a dos fluidos espirituais, de onde o espírito retira seus elementos constitutivos. Sendo da mesma natureza dos fluidos espirituais, o perispírito não permanece encerrado no corpo físico, irradiando ao seu redor e o envolvendo numa espécie de atmosfera fluídica. É dessa maneira que os nossos pensamentos e os pensamentos dos espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, recebendo e emitindo vibrações, numa troca constante de energias. Assimilado pelo perispírito, este os repassa, por intermédio do sistema nervoso, que lhes serve de fio condutor, ao organismo físico, que tem no cérebro o seu órgão destinado a esta função.

2.2 -  Por que os demais suicídios que são cometidos todos os dias no mundo todo não seriam pelo menos em grande parte evitados? O que fez o caso de Marina merecer atenção especial?

R - A questão 459 do Livro dos Espíritos informa que os espíritos nos influem muito mais do que imaginamos e que,em geral, são eles que nos dirigem. Em muitos casos, os benfeitores espirituais atuam decisivamente no sentido de evitar que o suicídio se efetive e o conseguem. Porém, é preciso entender que o espírito tem livre-arbítrio e nem sempre é receptivo às sugestões que o plano espiritual tenta inspirar. Marina recebeu um atenção especial dos benfeitores por intercessão de sua mãe, que, em desespero, o auxílio de Silas, a quem conhecia. 

2.3 -  O que facilitou a assimilação da mensagem enviada por Silas para Marina? 

R - O principal fator que contribuiu para que a mensagem de Silas fosse assimilada por Marina foi a sua própria ascendência espiritual em relação a ela. Falando-lhe com voz segura, como relata André Luiz, sugeriu-lhe que, antes de perpetrar o ato que a levaria à morte física, ela fizesse uma prece. Dedicando-se a uma prece sincera e sentida, Marina mudou completamente a atmosfera espiritual em torno de si, tornando-se mais receptiva às sugestões que lhe eram intuídas por Silas. 

3 -  Gostaria que vocês comentassem sobre a parte da história de Marina onde recusou ajudar a irmã Zilda, onde acabou recebendo a mesma tarefa posteriormente mas com um adicional de cometimentos que foi gerado pelo ato suicida. O que vocês acham desta parte que narra mais um episódio da reencarnação?

R - No livro "O Céu e o Inferno", Allan Kardec faz um importante estudo sobre as penas futuras, no qual expõe a visão do Espiritismo acerca do futuro da alma. Explica o Codificador que o arrependimento, a expiação e a reparação constituem as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta cometida e sua conseqüências. A reparação, prossegue Kardec, "consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contato com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito". Isto explica as reencarnações de Marina e Zilda no mesmo ambiente familiar, nas posições de mãe e filha. 

Tendo levado Zilda, em existência pretérita, à prática de leviandades que a conduziram a um estado de demência após a sua desencarnação, Marina reencarnou como sua irmã mais velha, com o propósito de tutelá-la naquela jornada reparatória. Sucumbindo aos sentidos materiais, proporcionou nova queda moral da irmã, que se deixou levar ao suicídio. Sendo a reparação uma condição necessária para apagar os efeitos das faltas do passado, a misericórdia divina favoreceu-lhes com nova oportunidade de reajuste, vindo Zilda com graves enfermidades no corpo material, que a impedem de exercer plenamente suas faculdades físicas e intelectuais. Marina, que contribuiu para que Zilda contraísse os graves débitos que estão a exigir reparação, reencarnou como sua mãe, a quem incumbe auxiliar a vencer a provação, reparando, também, seus equívocos do passado.

Um grande abraço a todos

Equipe CVDEE
Sala André Luiz
Coordenação: eqpal@cvdee.org.br