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quinta-feira, 18 de junho de 2015

09  esboço de o livro dos médiuns

22 = 33

Allan Kardec - O Livros dos Médiuns - Parte Segunda - Manifestações Espíritas - cap. 6 - Manifestações Visuais - 

Ensaio Teórico Sobre as Aparições

Bicorporeidade e Transfiguração

120 Tácito   2 relata um fato semelhante:

Durante os meses em que Vespasiano3 estava em Alexandria aguardando os ventos favoráveis de verão e a estação em que o mar oferece segurança, diversos prodígios aconteceram, pelos quais se manifestaram a proteção do céu e o interesse que os deuses pareciam ter por esse príncipe...

Esses prodígios despertaram em Vespasiano o desejo de visitar a morada sagrada dos deuses, para consultá-los em relação ao Império. Ele ordenou que o templo fosse fechado a todas as pessoas; uma vez lá dentro e atento ao que o oráculo4 ia dizer, notou atrás de si um dos chefes egípcios dos mais importantes, chamado Basílide, que ele sabia estar doente em lugar bem distante de Alexandria. Perguntou aos sacerdotes se Basílide estivera aquele dia no templo, perguntou aos passantes se o tinham visto na cidade e, por fim, enviou homens a cavalo e certificou-se de que, naquele momento em que lhe havia aparecido, Basílide estava a oitenta milhas de distância. 

Desde essa época não mais duvidou de que a visão havia sido algo sobrenatural, e o nome Basílide tornou-se para ele um oráculo (TÁCITO. Histórias. Livro Quarto, capítulos 81 e 82. Tradução de Burnouf).

121 A pessoa que aparece simultaneamente em dois lugares diferentes possui portanto dois corpos; mas, dos dois corpos, apenas um é real; o outro é apenas uma aparência; podemos dizer que o primeiro possui vida orgânica e que o segundo possui a vida da alma; ao despertar, os dois corpos se reúnem, e a vida da alma entra no corpo material. Não parece ser possível, pelo menos não temos nenhum exemplo disso, e a razão parece demonstrar, que, durante a separação, os dois corpos desfrutem simultaneamente e no mesmo grau as vidas ativa e inteligente. Além do que acabamos de dizer, resulta que o corpo real não poderia morrer enquanto o corpo aparente permanecesse fora dele: a aproximação da morte atrai sempre o Espírito para o corpo, ainda que apenas por um instante. Disso resulta, igualmente, que o corpo aparente não poderia ser morto, porque não é orgânico e não é formado de carne e osso; ele desapareceria no momento em que o quisessem matar.

122 Passemos ao segundo fenômeno, chamado de transfiguração. Ele consiste na mudança de aspecto de um corpo vivo. Eis em relação ao assunto um fato do qual podemos garantir a perfeita autenticidade e que se passou nos anos de 1858 e 1859 nos arredores de Saint-Etienne.

Uma jovem de aproximadamente quinze anos de idade desfrutava da singular faculdade de se transfigurar, ou seja, de tomar em determinados momentos a aparência de pessoas mortas; a transformação era tão completa que se acreditava ver as pessoas diante de si, tal a semelhança dos traços fisionômicos, do olhar, do som da voz e até da maneira de falar. Esse fenômeno se repetiu centenas de vezes, independentemente da vontade da mocinha. Ela tomou diversas vezes a aparência de seu irmão, que havia morrido alguns anos antes; tomou não apenas seu semblante, mas também seu porte e o volume de seu corpo. Um médico do lugar testemunhou diversas vezes esses estranhos efeitos e, querendo se certificar de que não era um joguete de ilusão, fez uma interessante experiência. Conhecemos os fatos pelo que ele mesmo nos contou, pelo pai da moça e por diversas outras testemunhas oculares bastante honradas e dignas de fé. Ele teve a ideia de pesar a moça no seu estado normal e, depois, no estado de transfiguração, quando passava a ter a aparência de seu irmão, que tinha vinte e poucos anos e que era bem maior e bem mais forte. Pois bem! Ele descobriu que nesse estado o seu peso era quase o dobro. A experiência foi conclusiva; era impossível atribuir aquela aparência a uma simples ilusão de ótica. Tentemos explicar o fato, que durante algum tempo foi considerado milagre, mas que chamamos simplesmente de fenômeno.

123 A transfiguração, em certos casos, pode ser uma simples contração muscular que dá à fisionomia uma outra expressão, a ponto de tornar a pessoa quase irreconhecível. Temos observado isso com frequência em sonâmbulos, mas nesses casos a transformação não é radical; uma mulher poderá parecer jovem ou velha, bela ou feia, mas será sempre uma mulher, e seu peso não aumentará nem diminuirá. No caso que relatamos, está bem evidente que há alguma coisa a mais; a teoria do perispírito vai nos esclarecer isso.

Está admitido, em princípio, que o Espírito pode dar a seu perispírito qualquer aparência; que pela modificação na disposição molecular pode lhe dar visibilidade, tangibilidade e consequentemente opacidade; que o perispírito de uma pessoa viva, fora do corpo, pode passar pelas mesmas transformações; que essa mudança de estado se opera pela combinação de fluidos.

Imaginemos agora o perispírito de uma pessoa viva que, sem estar fora do corpo, irradia-se ao redor dele de maneira a envolvê-lo como num vapor; nesse estado, pode sofrer as mesmas modificações que sofreria se dele estivesse separado. Se ele perde a transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível e ficar oculto, como se estivesse mergulhado num nevoeiro. Ele até mesmo poderá mudar de aspecto, tornar-se brilhante, se for a vontade do Espírito ou se ele tiver poder para isso. Um outro Espírito, combinando seu próprio fluido com o do primeiro, poderá dar a essa combinação de fluidos a sua própria aparência; de modo que o corpo real desapareça sob um envoltório fluídico exterior, cuja aparência pode variar de acordo com a vontade do Espírito. 

Essa parece ser a verdadeira causa do fenômeno estranho e raro, convém que se diga, da transfiguração. Quanto à diferença de peso, ela pode ser explicada pela mesma maneira dos corpos inertes. O peso real do corpo não variou, porque a quantidade de matéria não aumentou; ele sofreu a influência de um agente exterior, que pode aumentar ou diminuir seu peso relativo, como já explicamos anteriormente nas questões nos 78 e seguintes. É provável que, se a transfiguração acontecer com um adulto e ele tomar o aspecto de uma criança, seu peso diminua proporcionalmente.

124 Compreende-se que o corpo possa tomar uma outra aparência maior ou até mesmo da mesma dimensão; mas como poderá tomar uma menor dimensão, a de uma criança, como acabamos de dizer? Nesse caso, o corpo real não ultrapassaria os limites do corpo aparente? Também não queremos dizer que o fato se produziu; apenas queremos mostrar, em referência à teoria do peso específico, que o peso aparente poderá diminuir.

Quanto ao próprio fenômeno, não afirmamos nem sua possibilidade nem sua impossibilidade; mas, se ocorresse e se não fosse possível dar-lhe uma solução satisfatória, isso não o anularia; não podemos nos esquecer de que estamos nos primórdios da ciência e que ela está longe de haver dito sua última palavra sobre esse ponto, como sobre muitos outros. Aliás, as partes excedentes do corpo poderiam perfeitamente se tornarem invisíveis.

A teoria do fenômeno da invisibilidade deduz-se muito naturalmente pelas explicações anteriores e pelas que foram dadas em relação ao fenômeno de transporte, nas questões nos 96 e seguintes.

125 Resta-nos falar do singular fenômeno dos agêneres* que, por mais extraordinário que possa parecer à primeira vista, não é mais sobrenatural do que os outros. Mas, como já explicamos na Revista Espírita (fevereiro de 1859), acreditamos ser inútil reproduzir aqui seus detalhes; diremos apenas que é uma variedade da aparição tangível; é o estado de certos Espíritos que podem se revestir momentaneamente das formas de uma pessoa viva, a ponto de causar completa ilusão.